Autenticidade e Transparência na Rede:uma conclusão-síntese possível

A questão da Autenticidade e Transparência na rede é considerada como uma das prementes problemáticas associadas à Virtualização das Relações Sociais. Por que motivo, interrogo-me. Não a será também nas relações sociais, ditas reais? A mentira, a hipocrisia, o plágio, o fingimento, o uso de “máscaras”, não fazem estes, todos, parte dos meandros do nosso relacionamento? Não será, esta discussão, um tópico de um debate mais abrangente e alargado? Creio que sim. Talvez consiga demonstrar isso, sem grandes recursos ou citações, mas com simples (paradoxalmente complexos) pensamentos. No entanto, como diz Daniel Innerarity (2004:27) “No mundo da simulação, o real transforma-se numa coisa obsessiva. A nossa cultura está fascinada pela distinção autenticidade/simulação”. Por isso, e juntamente com o relançamento destas preocupações e interrogações, que indexaria ao foro das Ciências Sociais e Humanas, diria que é sempre um bom sinal. Agarrêmo-las, então. Discutamos sobre elas, mesmo correndo o risco de, no fim, ficarmos ainda com mais dúvidas. Como dizia Descartes “Eu penso, logo existo”!

Avancemos, para já, com duas indagações.

– Quem somos nós, nesta sociedade em Rede, neste ciber-mundo e ciber-realidade?

Seres humanos atrás de um écran e seres comunicantes através de um teclado ou digital devices. Mas seres humanos. Antes de tudo e sobretudo. É verdade que graças à tecnologia, nossa criação (é preciso não esquecê-lo), tornou-se possível reinventarmo-nos, apropriarmo-nos de novas máscaras, desempenharmos novos papéis e vestir a pele de novos personagens. Será que este novo contexto de construção de identidade potencia uma certa esquizofrenia ou quem nós somos digital e/ou virtualmente não será uma extensão de nós física e/ou presencialmente, ou seja, nós mesmos? Tudo depende. É relativo. Neste caso, diria ao grau de maturidade. Preocupa-me bastante os adolescentes de hoje e menos os adultos. O quem sou eu, é construído com base nos “olhares” dos outros, reais e virtuais. Enquanto adulta, revejo-me na segunda opção, não existindo verdadeira separação entre o eu presencial e o eu virtual. Ambos os mundos fazem parte da minha realidade, procuro apenas formas de como participar nela e assumo uma linguagem diferente. Nesse sentido, empírico, creio que existe continuidade na identidade de cada um de nós e que, consequentemente, existe autenticidade e transparência na rede, tanto quanto as há nos contactos presenciais, para a maior parte dos adultos que nela se encontram e se relacionam. Mas o que será para um jovem? Conseguirá ele fazer essa “ponte” ou essa destrinça? Terá ele alicerces psicológicos, afetivos e, eventualmente, morais para tal? A uma crise de construção de personalidade, própria da adolescência, não estará ele, o jovem, mais fragilizado para fazer face a uma outra crise de identidade, “Crise diante da ‘perda do sentido do ser ’pluralizada e pulverizada nos vários espaços de interação criados a partir das modificações sociais, políticas, económicas e, sobretudo, culturais das quais a globalização e tecnologia informacional se tornam vertentes para compreender os vários sujeitos formados”? (Hall, 2006). Há quem pense que o contrário…

– Como garantir a transparência e autenticidade na rede?

Da mesma forma que no mundo real, não será? Seja através da educação, de transmissão de valores considerados éticos ou através de mecanismos dissuasores e/ou garantes de alguma segurança. Digamos que acredito mais na educação, ou se quisermos, na prevenção através da construção, interiorização e/ou prossecução de valores primordiais instituídos. Por muitos instrumentos protetores da autenticidade e transparência que possam existir e vir a ser criados, haverá sempre alguém que os “furará”, basta querer. Por isso, parece ser no querer, que é preciso investir. Na anulação do querer/fazer mal e sublimação do querer/fazer bem. Ser-se o mais transparente e autêntico possível na rede (percetível pela coerência, personalização da linguagem, repetição…) pode ser um exemplo de antídoto para a falta de transparência e autenticidade. No entanto, e para além deste, não me parece que exista melhores garantes de transparência e autenticidade do que a própria rede de “amigos”, “colegas” e “conhecidos” virtuais e do que a aprendizagem do funcionamento do contexto digital, dos seus recursos e instrumentos, da(s) sua(s) linguagens

Agora, regressemos ao início desta conclusão-síntese. Esta questão de Autenticidade e Transparência na Rede não se enquadrará (mesmo) num debate mais amplo e multidisciplinar? E se sim, como conseguir, nesse caso, tecer uma conclusão que não seja (senão) subjetiva e aberta para futuros desenlaces? Não serão, também, subjetividade e abertura, sinais de transparência e autenticidade, quer na Rede quer fora dela?

– Innerarity, D. (2004). Sociedade Invisível: como observar e interpretar as transformações do mundo actual. Lisboa: Editorial Teorema.
– HALL, Stuart. (2006). A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Louro. 9ª Ed. Rio de Janeiro: DP&A. Retrieved: http://www.cencib.org/simposioabciber/PDFs/CC/Jose%20Carlos%20Ribeiro%20e%20Thiago%20Falcao.pdf

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s