Comentário sobre Cibercultura de P. Lévy – três exemplos

Comentar sobre a cibercultura não é apenas falar sobre uma cultura específica, particular
aos/ dos cibernautas, daqueles que navegam e “surfam” na(s) rede(s) da internet. É tentar
compreender as “implicações sociais e culturais da informática ou da multimídia” na sociedade
atual e cuja dificuldade é enorme dada “a ausência radical de estabilidade neste domínio”
(Lévy, 1999, 24) e de nos encontrarmos em pleno momento de reconfiguração societal e da
humanidade.
Falar sobre cibercultura é, pois, mais do que isso, do que falar numa contracultura, ou
subcultura, restringida a um contexto, hábitos dados, interesses comuns, linguagem própria e/
ou a determinados membros/utilizadores.
Confesso que foi, no entanto, um dos vários pensamentos que me ocorreu aquando da III
Conferência do Mestrado em Pedagogia do e-Learning. Ao longo das diferentes participações
e discursos dos professores, que se referiam, num tom simpático e informal, a “MOOC’s” ou
a “Web Semântica” (entre outros termos, conceitos totalmente desconhecidos para mim),
e com um entusiasmo e ligeireza tal, senti crescer em mim a sensação que estava perante
um grupo fechado, restrito (quase hermético), com uma linguagem própria, e no qual teria
dificuldade em me integrar.
Este misto de sensações de receio, de desorientação e falta de pertença, por mim ressentido é
afinal comum. Perante a velocidade da transformação do “pequeno mundo” em que vivemos,
vivíamos, fruto da evolução tecnológica esta é, a maior parte das vezes, apreendida por quem
não a acompanha como “um outro ameaçador”(Lévy, 1999, 28), (apreensão e resistências
essas que revejo, não só em mim mas, também, na maioria dos meus familiares e dos meus
colegas professores), provocando um “estado de desapossamento” (Lévy, 1999, 28) e estes
fazem parte daquilo que Lévy designou de Pharmakon e do veneno do crescimento do
ciberespaço “espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e
das memórias dos computadores”.(Lévy,1999, 92)
Estas sensações foram, logo, dissolvidas pelo almoço, pelas conversas com os colegas e
professores e, depois, pelo decorrer das atividades, pelo ambiente colaborativo existente no
curso, pela aprendizagem/aprendizagens efetuadas, pelas leituras e conhecimento partilhado,
e pelas reflexões mantidas.
As minhas atuais constatações vão no sentido em que a cibercultura não se encontra
confinada a um espaço e/ou pessoas ou grupos à parte. Pelo contrário, atravessa, está
infiltrada em todos e em tudo. Embora se tenha de ter em conta que “emergência do
ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social, com o seu grupo líder (a juventude
metropolitana escolarizada), suas palavras de ordem (interconexão, criação de comunidades
virtuais, inteligência coletiva) e suas aspirações coerentes”(Lévy, 1999, 122), a cibercultura
faz hoje parte, direta ou indiretamente, das coisas mais comezinhas do nosso quotidiano,
afeta a forma como comunicamos e nos relacionamos com os outros, seja virtualmente seja
presencialmente, implica novos exercícios de raciocínio, de memorização e de imaginação.
Vários são os exemplos disso mas irei recorrer apenas a três que, apesar de óbvios e
consequentemente, fáceis, parecem ser bem representativos dessa presença, de interferência
e de interligação, da cibercultura no nosso dia-a-dia.

Os dois primeiros, comecei por relacioná-los com um dos princípios, considerado por Pierre
Lévy, do programa da Cibercultura – as comunidades virtuais – e a uma referência feita por
este, a dada altura no seu livro “Cibercultura”, à exploração de novas formas de opinião
pública (Lévy, 1999, 127) para, depois, encontrar conexões com outras ideias defendidas pelo
autor como, por exemplo, com o ideal de “universalidade não totalizante”.

Não é, hoje, novidade para ninguém que é através das redes sociais, como o facebook, o
myspace, o youtube, o twitter, que os indivíduos tendem a demonstrar, e a medir, o seu
valor nas mais diversas áreas. Que é através destas que a opinião pública está a ganhar
novos contornos, permitindo a ascensão, ou sucesso, de um determinado indivíduo ou,
inversamente, fazendo com que indivíduos caiam em desgraça. Que é nelas que se têm vindo
a formar expressões democráticas de cidadania assim como a organização de manifestações,
movimentos a nível global, capazes de mudar o rumo político de sociedades.
De forma assaz ligeira, poder-se-á aqui fazer referência (sem quaisquer juízos de valor)
a cantores como Justin Bieber e Kate Berry, bandas ou grupos como os Fresno e Gloria,
que “nasceram” graças à popularidade atingida nas redes, ou ainda ao fenómeno mais recente
do “Gangnam style”. Segundo o Jornal de Notícias, de 25/09/2012, o sul coreano PSY tinha
obtido, até à data, com o seu vídeo “Gangnam style”, 270 milhões de visualizações no youtube
e o sucesso foi e ainda é tal, que a música deu origem a uma série de adaptações, um pouco
por todo o mundo como o “Gamar style” em Portugal.
Quer tudo tenha começado, a título de brincadeira, pela partilha de um vídeo, quer tenha consistido numa apresentação de capacidades/habilidades/competências previamente pensada, a realidade
tem vindo a demonstrar que as “carreiras”, neste caso musicais, passam, inevitavelmente, pelo
crivo destas novas formas de opinião pública, só possíveis graças à existência de mecanismos
de comunicação de suporte digital. Se-lo-ão exemplos ou produtos de cibercultura? Diria
que sim já que, entre outros, emergiram e são “levados”na/pela rede e puderam “colocar
na rede os produtos da sua criatividade sem passar pelos intermediários que haviam sido
introduzidos pelos sistemas de notação e de gravação” (Lévy, 1999, 216). Se-lo-ão exemplos
de “universalidade não totalizante” como entendido por P. Lévy? Sim. A sua difusão e audição
são a nível planetário e fazem parte dos múltiplos novos estilos (decerto populares) que
demonstram, de certa forma, uma nova dinâmica musical (em constante transformação
e renovação). Se-lo-ão exemplos da interligação entre os dois mundos, o físico e o virtual,
da presença imbrincada da cibercultura no nosso mundo real? Mais uma vez sim. Para tal,
basta recorrer à observação direta ou participante e ter filhos, familiares, próximos ou alunos
(maioritariamente do sexo feminino) jovens, ou ainda, por exemplo, ver na televisão, os
grupos de fãs que fazem filas para assistir a concertos, de alguns dos artistas mencionados.

Como segundo exemplo, ocorreu-me “recuar” até 2011 e mencionar as manifestações no
Egito. Estas são, no meu parecer, demonstrativas da força das redes sociais e das comunidades
virtuais e abrange não apenas a questão de novas formas de opinião mas, também, do
poder de organização, de mobilização e expressão democrática das vontades e opiniões dos
cidadãos, a nível global. Estas, e tantas outras no mundo árabe (e não só), foram convocadas
pela Internet, funcionando as redes sociais como as principais fontes de informação com o
mundo exterior. Os protestos, que assumiram a configuração de uma revolução, tiveram como
resultados a deposição do governo de Mubarack, a supensão da constituição e dissolução do
parlamento, entre outros. Antes desta, os protestos na Tunísia tinham levado à queda de Zine
El Abidine Ben Ali, um general que estava no poder havia 23 anos, tendo estas manifestações
tido um efeito dominó no mundo árabe. Segundo Claúdio Dantas Sequeira, num artigo escrito,
em 28 de janeiro de 2011, no jornal ISTOÉ Independente, “o que aconteceu no Egito foi quase
totalmente organizado no facebook. O fenômeno coincide com a divulgação pelas Nações
Unidas de um relatório indicando que já existem dois bilhões de internautas e 5,3 bilhões de
assinaturas de celulares em todo o planeta.”
As características de interconexão e de existência de comunidades virtuais, parecem
encontrar-se, aqui, bem patentes, quer na disseminação da informação atingida, quer
nos níveis de comunicação conseguidas na agregação de sentimentos de insatisfação e
de vontades na defesa dos direitos de cidadãos/populações. Para além disso, e pondo de
lado outras considerações, estes protestos/revoluções poder-se-ão interpretar (com óbvia
positividade) como expressões próximas de democracia direta ou, se quisermos, de verdadeira
democracia e, mais uma vez, (dado o acesso à participação de todos e um manifesto
afastamento de regimes políticos totalizantes), por fazer vislumbrar o que poderá ser, segundo
P. Lévy, a essência da cibercultura: o universal sem totalidade.
Como desejável, esta interpretação (do exemplo dado) é questionável e pode, deve, ser
repensado, surgindo aqui apenas como ponto de partida, de partilha e de possibilidade de
desenvolvimento.

Finalmente, o terceiro exemplo prende-se com a “simulação” (enquanto modo de
conhecimento próprio da cibercultura) e com um livro interativo que se encontra agora
nas “bancas”: o Wonderbook, que nos pode levar à discussão de um dos problemas, colocados
também por P.Lévy, associados à virtualidade, “digitalização” das situações: o problema da
substituição.
Wonderbook, mais do que um livro, é uma plataforma de livros-jogos adaptados para a
SonyPlaystation 3 (com a parceria da autora de Harry Potter), que através da tecnologia
de realidade aumentada, permite aos livros de ganharem vida e às pessoas de poderem,
interativamente, participar na história.
Como primeiro impacto, a minha reação é similar a muitos, a de medo desta aparente (ou
real?) imersão total num mundo que é virtual. Sobretudo, tratando-se de uma plataforma
que tem como principal público/participantes alvo, crianças e jovens, nos quais a formação
de fronteira, entre a ficção/imaginação e a realidade, ainda não se encontra supostamente
delineada. A imagem que surge ainda, em muitos dos (digamos assim) receosos, é a
de crianças fechadas num mundo de fantasia através de óculos e de outros comandos
tecnológicos transformados em varinhas mágicas.
Segundo P. Lévy, é um erro (considerando-o uma forma de nos deixarmos amedrontar por
aspetos minoritários) pensarmos que o virtual possa substituir o real. Em concordância com
as principais linhas do pensamento do autor, parece-me ser excessivo afirmar que o novo
possa fazer tábua rasa do velho, que possamos deixar completamente de, por exemplo, visitar
um museu ou ir a uma biblioteca só porque temos acesso virtual a qualquer um deles. Mas,
também não é menos verdade que “ir”ao cinema, deixou de fazer parte significativa das
nossas atividades.
Não foi, no entanto, este o sentido que atribuí ao partilhar este exemplo. O que me levou a
trazê-lo, foram outras interrogações. Na construção do seu pensamento, em Cibercultura,
P. Lévy parece sempre partir (ou, pelo menos, adotar, implicitamente, essa perspetiva) do
envolvimento e participação de adultos, quando parecem ser os mais novos, aqueles que
nasceram e banham nestas águas, que têm o contato em primeira mão com a cibercultura e
que contribuem, predominantemente, para a sua configuração. Terão estes as ferramentas
necessárias para refletir, e discernir, sobre o que é do campo da imaginação e o que é o
mundo real? A simulação, presente nestes (e noutros) jogos não substituirá (aniquilará) a
imaginação tal como a conhecemos? Conseguirão os adultos fazer a “ponte” entre estes dois
mundos ou submeter-se-ão estes também, sem tempo nem energia, ao virtual em detrimento
do real? Não será de levar em consideração a crítica da substituição, ou pelo menos, de alvitrar
a hipótese que os dois mundos se possam confundir nas nossas mentes?
Questões estas que ficam no ar, à espera de respostas que irão, certamente, ser diversas e
divergentes, mas que contribuirão, igualmente, para a construção conjunta do nosso saber.

Concluindo, e retomando o início do presente comentário, a ideia geral com que se pode
ficar é que, muito mais (não num sentido quantitativo) do que uma cultura à/na margem, a
Cibercultura é o nosso presente, complexo e irreversível, e o nosso futuro ainda em constante
criação. É a cultura do devir que envolve a transformação da nossa perceção, memória
e raciocínio e implica, antes de mais, exercitar o nosso pensamento para descortinar um
novo estádio do desenvolvimento humano, numa “inteligência coletiva” e num ideal….
de “universalidade não totalizante”.
Fontes bibliográficas:
Lévy, P. (1999). Cibercultura. Trad. de Carlos Irineu da Costa. 1ª edição. São Paulo-Brasil.
Editora 34. (Col. TRANS). Disponível em:
http://pt.scribd.com/doc/11036046/Cibercultura-Pierre-Levy

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